Quando a Natureza é apenas fator econômico Setembro 5, 2009
Posted by Fernando Rozano in Destino.3 comments

"Icebergs" do Glaciar Perito Moreno
Está certo, o turismo impulsiona a economia dos países. À primeira vista, todos ganham, ou, para usar expressão característica da área econômica, todos lucram. Não é bem assim. Exemplos mundo adentro mostram que o volume crescente de turistas, se por um lado aquece a dinâmica da circulação da moeda, por outro, cria danos irreparáveis em determinado sítios. Machu Picchu limitou o número de visitantes/dia para evitar desabamentos e outros acidentes. A energia da civilização inca compete com uma estrutura moderna e eficiente. Para lucrar, naturalmente.
É um fenômeno que acontece todos os anos. No verão, ou quando o sol aquece mais em qualquer estação nos dias de hoje, o gelo milenar do Glaciar Perito Moreno despenca de seus 60 metros de altura. Para muitos, um espetáculo, para outros, ótimo momento para vender pacotes turísticos. Afinal, assistir o degelo é algo que quebra a rotina. A cidade de El Calafate, na Patagônia argentina, acolhe milhares de turistas do mundo inteiro, em especial europeus, que lá chegam deslumbrados com tudo o que os seus olhos ainda podem ver. Estive em dois momentos em El Calafate. O primeiro, em 1996, e o segundo, em 2007. Mudanças que não escapam até mesmo ao mais desavisado visitante. Estrutura impecável, aeroporto de bom porte, cidade maior, mais habitantes, mais negócios. Nada contra. Ao contrário, o que gera emprego deve ser saudado. No entanto, há que se olhar o todo e não apenas uma parte, uma fatia preciosa que rede milhões de dólares e/ou euros. A Argentina é um belo país. Como o Brasil, possui diversos países dentro. Sua diversidade supera a brasileira, principalmente, em função da Cordilheira dos Andes. Dos glaciares. Dos parques e suas geleiras. Pelo Fim do Mundo, em Ushuaia. De 1996 a 2007 as transformações foram muitas. A começar pelo clima, pela temperatura. Antes, no extremo sul em janeiro dos anos noventa 12º era muito quente. Quase ao final da década de 00, 25º é normal. Claro, ainda há dias de muito frio. Mas, não é mais o mesmo de antes. Imagino como deveria ser muito tempo atrás.
Não se trata de ser saudosista de algo que não vivi. Trata-se de algo maior: a já não mais lenta destruição da Natureza. As razões, todos sabem. Porém, o que chama a atenção é uma notícia veiculado pelo Zero Hora de Porto Alegre em sua edição de 1º de setembro próximo passado. Na editoria de Economia. Nas poucas linhas, com direito a foto de Perito Moreno, a informação de que quase 20 toneladas desse gelo desprendido do Glaciar foi recolhido e envido a São Paulo para uma feira de turismo com o objetivo de divulgar a cidade de El Calafate. Entre as atividades previstas para o gelo azulado está a possibilidade de o público fazer pequenas caminhadas sobre os pedaços da “geleira”. Retirados do seu meio ambiente, os blocos de gelo são objetos do fator econômico. Algo como “faça um verdadeiro trekking em Perito Moreno indo à Patagônia e visitando El Calafate”.
Se a inicitiva possuir um projeto ambiental consistente até pode ser interessante, mas a julgar pela notícia é apenas mais atração turística com finalidade de vender o lugar e encontrar mais lucro. Às custas da Natureza e, por consequência, da vida, que se esvai com rapidez assustadora.