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O bardo Van Morrison Abril 15, 2009

Posted by Fernando Rozano in Música.
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O bardo não envelhece. O tempo não para ninguém, menos para George Ivan Morrison na certidão de nascimento desde 31 de agosto de1945. Belfast viu nascer o Them, enquanto o Brasil começava a conhecer os rigores do regime militar em 64. A mescla de rock com o celtic soul desde o início é a sua marca. É de lá que vem “Gloria”, canção assumida pelos The Doors, por outro Morrison, o Jim. O irlandês jamais se deixou levar pelo silêncio. A inquietude criativa o fez seguir caminho sozinho. E ao entrar nos acalorados e até hoje febris dias de 1968, sua obra-prima estava concebida. Os estúdios receberam os músicos em rápidas sessões. Cada um gravou seu instrumento separado. Como não se conhecessem. Entre setembro e outubro Astral Weeks ganhou sua forma definitiva. Mágica. Assombrosa e bela.Van, Jay Berliner, Richard Davis, Connie Kay, John Payne e Warren Smith, Jr. criaram o indefinível disco. Rock, Rhythm & Blues, Celta, Folk….até hoje se procura definir o que as oito canções de Astral são. Em duas magníficas partes, “In The Beginning” e “Afterwards” a sonoridade é harmônica. Envolvente. Separe, leitor, a voz do bardo, da textura musical. Sinta os instrumentos. Um de cada vez. Depois, todos juntos. Celebre mais tarde, colocando a voz de Morrison. O conjunto todo sacraliza o que há de melhor na música em todos os tempos. Passados exatos 40 anos, o Hollywood Bowl acolheu em novembro de 2008 Van Morrison e o seu Astral Weeks. Ao vivo, a magia e sua força atual não perderam nada. Antes, se sente o quanto está à frente. Com ele, do estúdio de 68, apenas a guitarra de Jay Berliner. Ouça com toda a atenção. Esqueça o que está lá fora. Entre em nota do disco, não se disperse. E ainda ouça mais duas canções como bônus. Astral Weeks e Van Morrison se confundem, são o mesmo. Mas, nos liberta.

Astral Weeks em 1968. No estúdio

Astral Weeks em 1968. No estúdio

40 anos depois, no Hollywood Bowl. Ao vivo

40 anos depois, no Hollywood Bowl. Ao vivo

Internacional, simplesmente Abril 4, 2009

Posted by Fernando Rozano in Futebol.
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Em Monte Belo, interior do Rio Grande do Sul

Em Monte Belo, interior do Rio Grande do Sul

 

Foi no inverno. Lembro  a chuva em meu blusão cinza. O rosto escondido entre os braços. O guarda-chuva não acolhia nem a mim, tampouco a meu irmão mais velho. Os eucaliptos erguiam-se fortes à nossa frente. Meu pai agarrava minha pequena mão. As poucas pessoas na entrada procuravam proteção. O cheiro de pastel indicava  o local de acesso às arquibancadas. Imensas, deixavam escorrer a água intermitente daquele julho, colando nos degraus as folhas verdes das árvores. Nunca estivera lá. Meu olhar parou nas poças acumuladas na grama e nos pontos em que o barro mudava de cor.

Sentamos. A almofada feita por minha mãe acomodou-se no cimento, e nós a pressionamos com o peso dos nossos sete, oito anos. Futebol não era novidade. conhecíamos, e muito, os outros clubes de Porto Alegre: Grêmio, São José e Cruzeiro. Todos os três estavam presentes em nossas tardes de domingo. Meu irmão vestia azul sem nenhuma dúvida. Eu apenas achava engraçado ele gritar toda a vez que via a bola chutada por algum jogador de camiseta tricolor chocar-se com as redes. Seus gritos estão em mim até hoje. Não significavam nada além da graça de vê-lo feliz.

Meu pai chamou-me. Fiquei atento. A chuva havia parado. Uma multidão ao nosso redor falava alto. Alguns nomes eram citados: Sérgio Lopes, Sapiranga. Não conseguia entender quem eram. Minha curiosidade fixou-se nos números citados por eles: cinco, sete e dez. Estava distante do campo de jogo, quase não enxergava. Às vezes, algum guarda-chuva abria, logo seguido do trovão. Então, todos levantaram.

Os tricolores entraram vaiados por um lado, aplaudidos pelo outro. Meu irmão ficou quieto. Era o time dele. Imagino o quanto deve ter lhe custado o silêncio. Estava no lado errado da torcida. Em seguida, um barulho infernal de fogos de artifício obrigou-me a fechar os olhos, a tapar os ouvidos e encolher meu corpo magro e pequeno. Quase sem coragem, consegui abri-los. Em meio à fumaça acinzentada, vibrava o vermelho. Não uma cor vermelha, várias. Não conseguia acompanhá-las. Meu coração acelerou. Não senti medo. Queria ver todas no gramado embarrado. Um gosto salgado molhou minha boca. Perguntei ao meu pai que time era. Ele simplesmente disse: Internacional.

Julho de 1961, mês e ano em que o Internacional entrou em minha vida. Para sempre.

********** Abro uma exceção no Senso Crítico. Hoje, 04 de abril de 2009, o Sport Club Internacional completa 100 anos de vida. Reproduzo a crônica publicada no livro Histórias Coloradas de 2004, editado pela Nova Prova Editora, como homenagem ao clube da minha alma.