Sensibilidade porteña Agosto 2, 2008
Posted by Fernando Rozano in Música.Tags: fusão, Música, sensibilidade, tango
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Há muitos anos a Argentina apresenta um alentador processo de renovação, de revitalização da sua música. O tradicional, as suas raízes, o tango, o folclore e mesmo o tango começaram a receber visitas freqüentes de instrumentistas e pesquisadores. A busca por uma nova sonoridade, que acompanhe os dias de hoje sem deixar fora do alcance da memória a História, introduziu novos elementos às harmonias clássicas e às novas composições. Hoje, é natural as fusões ou mesclas de tango com folclore, rock com tango, folclore com música de câmara, e outras tantas variações. Todas criadas com muito talento e muita sensibilidade. Grupos como Gotan Project e Bajofondo, por exemplo, têm como base o entrelamento da música eletrônica com o tango. O resultado não poderia ser diferente: sucesso imediato. A linguagem, sem ser agressiva ou simplesmente feita para ser absorvida pelo mercado, realimenta a disposição de se ouvir os grandes clássicos de Carlos Gardel, de Aníbal Troilo ou de Enrique Cadícamo em gravações originais. Assim, também é extraordinário descobrir o quanto dois instrumentistas podem fazer com um repertório tanguista: Walter Rios e Ricardo Domingez, como Rodolfo Mederos e Nicolas “Colacho” Brizuela (ex-violonista de Mercedes Sosa) gravaram com dois instrumentos – bandoneón e violão – dois discos magníficos: Chamuyos de fueye & guitarra e Tangos, pela ordem. Da mesma forma, nas manhã de domingo na Feria de San Telmo, se escuta jovens estudantes de música tocando ao ar livre. A Orquestra Típica El Afronte aproveita o grande movimento, em especial de turistas, e faz apresentações perfomáticas de tango e peças clássicas. Com discos gravados e à venda inclusive em Porto Alegre, a Orquestra é uma prova de que visitar o passado não é necessariamente voltar para trás. Ao contrário, é encontrar novos caminhos, como fez ainda nos anos 50, Astor Piazzolla, o maior revolucionário do tango, ao introduzir improvisos e fortes influências do jazz em suas composiçãoes e leituras. Outro grande momento, é a gravação ao vivo de No olvides… com Juan Carlos Baglietto e o pianista Lito Vitale. Quem for a Buenos Aires, não deixe de procurar o cd, é imperdível cada uma das 15 faixas do disco, alternando tangos, canções urbanas, tonadas e um qu~e de clássico e jazz. Estes movimentos têm outras pontas marcantes. Uma delas é o compositor que está na capa da ilustração deste post: Guillo Espel. De sólida formação clássica, enveredou pelo folclore, pela raiz, pelo tango, pelo jazz, pela MPB. Desde seu grupo La Posta, um trio extraordinário, e depois em outras formações, Espel se notabiliza pela ousadia em seus arranjos. Pouco antes, ao gravar De raíz floklórica não deixou margem de dúvida: ali estava presente um grande compositor e arrajandor. Seu trabalho a seguir, como Cuarteto, foi instigante e criativo, em especial com canções de Atahualpa Yupanqui, Manolo Juárez e Antonio Carlos Jobim, para desaguar em Salir al ruedo. Em gira pelo Brasil, fez antológoca apresentação em Porto Alegre, onde, acompanhado de Marcos Cabeaz(vibrafone e bombo legüero), Román Rosso(bandoneón) e Alfredo Zucarelli(cello), trouxe o que que há de mais criativo para os lados de lá do Rio da Prata. As pianistas Nora Sarmoria, Lilián Saba, o criador da Misa Criolla Ariel Ramirez, o folclorista Antonio Tejada Gómez freqüentam o repertório de seu disco com a espontaneidade de suas composições com sabor de jazzístico em harmonia com o clássico. Um trabalho de muito fôlego e de muita beleza. Quem quiser ouvir, basta clicar no link à direita – Guillo Espel – e estará em sua página. Lá, uma pequena seleção em MP3 para ser degustada com prazer e alegria. Pura sensibilidade porteña.
Fernando Rozano
