A música de Angola Agosto 30, 2008
Posted by Fernando Rozano in Música.Tags: Angola, ritmos, semba
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Gravação surpreendente, quase despercebida da grande mídia, Quintal do Semba é muito mais que um documento. É História. É a presença angolana revitalizada e mostrando ao mundo sua excelência musical. Nos estúdios da Rádio Nacional de Angola se reuniram os principais nomes da música daquele país e desfilaram verdadeiras peças preciosas do que mais tradicional existe em ritmo na África. Ao mesclarem o novo com o mais antigo, traduzem – sim, em tempo presente – a força de um continente. Semba ou massemba ou ainda umbigada em quimbundo, língua angolana, tem muito do que conhecemos no Brasil: batuque, dança de roda, lundu, chula, maxixe e até Partido Alto. Também significa dança do interior caracterizada por movimentos que implicam o encontro dos corpos masculino e feminino, quando então o homem segura a mulher pela cintura e puxa-a ao seu encontro, provocando o choque. Como gênero musical, é um complexo processo de fusão e transposição da guitarra com vários elementos de percussão, que é a base da cultura africana. Catalogado em vários sites de venda como “world music” o cd e o dvd são magníficos testemunhos. Estão os mais representativos e genuínos músicos de hoje como Carlitos Vieira Dias, Paulo Flores, Moreira Filho e Ângela Mingas. Não deixam, também, de celebrar os mestres do passado como Liceu Vieira Dias, Fontinhas, Belita Palma, Elias Dia Kimezo e Artur Nunes entre outros. Ao lançar um olhar mais apurado pelo encarte – belíssimo – você ire encontrar Caetano Veloso, Nei Lopes, Wilson Moreira e Djavan na bela “Rapsódia Brasileira Maria das Mercedes”. Nada é por acaso no disco. Os instrumentos e as vozes estão em perfeita comunhão e o sabor do que mais tradicional e belo do continente africano, com muitas falas em português misturadas com sua língua, e se unem ao moderno também em harmonia e espiritualidade. Um belo disco.
1968, Beatles, Álbum Branco…Revolução. Ainda Agosto 19, 2008
Posted by Fernando Rozano in Música.Tags: 1968, Índia, Beatles, rock
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1968 o ano que não terminou foi, ou melhor, ainda é título de livro. Da lavra do jornalista Zuenir Ventura. Magnífico registro daquele anos, e anos sessenta, nas cores verde-amarelas do Brasil. Não poderia ser diferente. Emblemático, visceral, 68 jamais deixará de existir. Em todos os sentidos, até mesmo para contrapô-lo à modernidade. E é exatamente naqueles anos que a vida começou a acontecer em todas as áreas da expressão artística, social, política, econômica, cultural. Muito vindo de pouco antes, germinando no ventre da inquietação, da rebeldia, da criatividade. A História narra até os dias de hoje o centro sísmico daqueles tempos. Na música, a lista impressiona. Porém, das grandes surpresas por certo foram os quatro de Liverpool. Há muito já haviam desestruturado convenções com seu rock oscilante entre o adolescente e o mais irreverente, regado à muita densidade e carisma, eles demonstraram que não eram uma banda de mídia. Àlbuns anteriores como Revolver (1966) e Sgt Pepper´s Lonely Hearts Club Band (1967) já haviam se tornado marcos conceituais dentro do universo pop. Porém, com o The Beatles (1968), mais conhecido como o Álbum Branco, que as características individuais de John, Paul e George, principalmente, vieram à tona. Começaram por gravar um disco duplo tamanha era a quantidade de extraordinárias canções estavam prontas em seu repertório. Ainda que tenha sido uma pretensão, o tempo provou: é o disco mais vendido deles. Gerado durante e após a viagem à Índia com Maharishi Mahesh Yogi, a franciscana passagem pela terra do espiritualismo, foi tornando visível a essência de cada compositor. Por vezes, apenas o violão à mão, as canções nasceram assim, despossuídas de requintes instrumentais e por isso o grande valor dos seus arranjos posteriores, já em estúdio. Embora as assinaturas oficiais constem Lennon&McCartney, há a clara e manifesta presença individual em cada composição. O que é de Lennon é Lennon, e assim com Paul também. Na Ìndia emergiu, definitivamente, Harrison. Em fase criativa, é dele a música que mais impacto causou e quem sabe ainda cause a quem escuta o álbum: “While my guitar gently weeps” com uma participação especialíssima de Eric Clapton na guitarra solo. Mais tarde, George iria compor “Something”, “Here comes the sun”, por exemplo. Período fértil para o mais jovem beatle, logo após a separação, gravou o antológico All Things Must Pass (1970). Mas, esta é outra história. A verdade é que o Álbum Branco tem a gênese dos que outros fariam, como o Pink Floyd, Led Zeppelin, e toda a espécie de experimentalismo que viria a seguir. Beatles, simplesmente e ponto final. E, claro, não poderia deixar de ser, 1968. 40 anos depois, atual e revolucionário. Ainda.
Fernando Rozano
Two men with the Blues Agosto 14, 2008
Posted by Fernando Rozano in Música.Tags: alma, blues, country, jazz
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Harmonias sempre encontram cúmplices. Pouco importa suas origens. Em algum momento, ou em todos, elas se cruzam. O que tem a ver o jazz com o country é uma pergunta que muitos podem estar fazendo ao entrarem em uma loja de discos e olhar a capa reproduzida ali acima. Pois, Wynton Marsalis e Willie Nelson decidiram juntar seu violão e trumpete, reuniram um grupo de instrumentistas daqueles que chamamos de primeiro time e tocaram juntos. O cenário novaiorquino foi perfeito. A The Allen Roon da Home of Jazz at Lincoln Center, o palco. Os dias 12 e 13 de janeiro de 2007, as datas escolhidas. Para quem imagina que as dez faixas de Two men with the Blues é uma variada alternância de estilos e gêneros, ou seja, uma faixa é jazz, a outra o mais puro country está muito enganado. Os dois Ws freqüentam - a apresentação foi passado, o disco é presente - repertório de standards como “Stardust” e “Georgia on my mind” em arranjo genuínos, próprios de quem vive e transpira alma. E assim, as canções vão se transformando no mais legítimo e refinado blues. Soma-se composições de Jimmy Reed, Spencer Williams, Grainger Porter, de Nelson e estão todos os elementos do que melhor se faz com a sensibilidade. Imperdível. Melhor, eles estão tramando outro encontro. Será em fevereiro de 2009 no Rose Theater. Nós, agradecemos.
Fernando Rozano
Um lugar inesquecível Agosto 7, 2008
Posted by Fernando Rozano in Destino.Tags: Patagônia, Torres del Paine, vida
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Ainda exitem lugares que permanecem quase virgens. Lugares em que o moderno chegou, mas não com a força suficiente para destrui-lo ou apagá-lo da memória. Lugares em que a harmonia entre a Natureza e os seus reinos, intactos, comovem a quem por lá chega. O Parque Nacional Torres del Paine é um destes destinos em que os olhos jamais esquecerão de terem visto. Encravado entre o maciço da Cordilheira dos Andes e as estepes patagônicas, em uma extensão de 181.000 hectares, a vida e as estações cumprem os seus ciclos. O nome da província em que o Torres del Paine se localiza pode assustar, ou pode ser um indicativo: Ultima Esperanza. No entanto, este lado chileno da Patagônia é um testemunho vivo da vida em toda a sua plenitude. Distante pouco mais de três mil quilômetros de Santiago, por terra, ou pouco mais de quatro horas de avião, conviver alguns dias com a fauna, a flora e o relevo andino refaz qualquer esperança perdida. Não são belezas apenas naturais que insistem em se preservarem, mas, sobretudo, as longas distâncias e o silêncio que renovam a alma. São os olhos que brilham ao simples encontro com um condor, ou com um zorro colorado, ou com rebanhos de guanacos. Quem sabe, ao caminhar à beira dos lagos e ver as montanhas cobertas de neve, o tom azul-esverdeado das águas, o frio muitas vezes abaixo de zero, ou o amanhecer iluminando em tons alaranjados os cuernos de Torres del Paine. Ou, então, conhecer um pouco antes de ir ao Parque, as cidades de Punta Arenas – à beira do Estreito de Magalhães - e Puerto Natales - sempre com glaciares à disposição como o Balmaceda e o Serrano. Percorrer os fiordes do sul chileno é algo de extraordinário em todos os sentidos. Há em cada um destes momentos um sentimento que a razão jamais irá explicar. E não é necessário. Basta sentir. Acesse o www.torresdelpaine.com e compreenda cada uma das razões de ser um lugar onde vale a pena conhecer e se harmonizar consigo mesmo.
Fernando Rozano
Sensibilidade porteña Agosto 2, 2008
Posted by Fernando Rozano in Música.Tags: fusão, Música, sensibilidade, tango
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Há muitos anos a Argentina apresenta um alentador processo de renovação, de revitalização da sua música. O tradicional, as suas raízes, o tango, o folclore e mesmo o tango começaram a receber visitas freqüentes de instrumentistas e pesquisadores. A busca por uma nova sonoridade, que acompanhe os dias de hoje sem deixar fora do alcance da memória a História, introduziu novos elementos às harmonias clássicas e às novas composições. Hoje, é natural as fusões ou mesclas de tango com folclore, rock com tango, folclore com música de câmara, e outras tantas variações. Todas criadas com muito talento e muita sensibilidade. Grupos como Gotan Project e Bajofondo, por exemplo, têm como base o entrelamento da música eletrônica com o tango. O resultado não poderia ser diferente: sucesso imediato. A linguagem, sem ser agressiva ou simplesmente feita para ser absorvida pelo mercado, realimenta a disposição de se ouvir os grandes clássicos de Carlos Gardel, de Aníbal Troilo ou de Enrique Cadícamo em gravações originais. Assim, também é extraordinário descobrir o quanto dois instrumentistas podem fazer com um repertório tanguista: Walter Rios e Ricardo Domingez, como Rodolfo Mederos e Nicolas “Colacho” Brizuela (ex-violonista de Mercedes Sosa) gravaram com dois instrumentos – bandoneón e violão – dois discos magníficos: Chamuyos de fueye & guitarra e Tangos, pela ordem. Da mesma forma, nas manhã de domingo na Feria de San Telmo, se escuta jovens estudantes de música tocando ao ar livre. A Orquestra Típica El Afronte aproveita o grande movimento, em especial de turistas, e faz apresentações perfomáticas de tango e peças clássicas. Com discos gravados e à venda inclusive em Porto Alegre, a Orquestra é uma prova de que visitar o passado não é necessariamente voltar para trás. Ao contrário, é encontrar novos caminhos, como fez ainda nos anos 50, Astor Piazzolla, o maior revolucionário do tango, ao introduzir improvisos e fortes influências do jazz em suas composiçãoes e leituras. Outro grande momento, é a gravação ao vivo de No olvides… com Juan Carlos Baglietto e o pianista Lito Vitale. Quem for a Buenos Aires, não deixe de procurar o cd, é imperdível cada uma das 15 faixas do disco, alternando tangos, canções urbanas, tonadas e um qu~e de clássico e jazz. Estes movimentos têm outras pontas marcantes. Uma delas é o compositor que está na capa da ilustração deste post: Guillo Espel. De sólida formação clássica, enveredou pelo folclore, pela raiz, pelo tango, pelo jazz, pela MPB. Desde seu grupo La Posta, um trio extraordinário, e depois em outras formações, Espel se notabiliza pela ousadia em seus arranjos. Pouco antes, ao gravar De raíz floklórica não deixou margem de dúvida: ali estava presente um grande compositor e arrajandor. Seu trabalho a seguir, como Cuarteto, foi instigante e criativo, em especial com canções de Atahualpa Yupanqui, Manolo Juárez e Antonio Carlos Jobim, para desaguar em Salir al ruedo. Em gira pelo Brasil, fez antológoca apresentação em Porto Alegre, onde, acompanhado de Marcos Cabeaz(vibrafone e bombo legüero), Román Rosso(bandoneón) e Alfredo Zucarelli(cello), trouxe o que que há de mais criativo para os lados de lá do Rio da Prata. As pianistas Nora Sarmoria, Lilián Saba, o criador da Misa Criolla Ariel Ramirez, o folclorista Antonio Tejada Gómez freqüentam o repertório de seu disco com a espontaneidade de suas composições com sabor de jazzístico em harmonia com o clássico. Um trabalho de muito fôlego e de muita beleza. Quem quiser ouvir, basta clicar no link à direita – Guillo Espel – e estará em sua página. Lá, uma pequena seleção em MP3 para ser degustada com prazer e alegria. Pura sensibilidade porteña.
Fernando Rozano




